domingo, 31 de agosto de 2014

É só mais um 31


Dizem que chuva é sinônimo de sorte. E do fundo do meu coração eu espero que seja. Porque hoje eu chovi a alma em formas de lágrimas.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Movie-se

Eu estive em cartaz de 05 de Fevereiro à 07 de Abril de 2013. De terça à domingo, das 09h às 21h. Na Rua 1° de Março, 66, no Centro do Rio de Janeiro. Em 15/02/2013 fui lembrada quando já distante. Para ser mais exata: 1.964,97 km de distância. E tão mais rápido fui visitada pelas minhas lágrimas lá pelo dia 27 de Fevereiro de 2013, de horário incerto. E revisada disso dias depois. Uns 4 dias para ser mais precisa. Mesmo que os números não estivessem a meu favor.

"Com o chifre do rinoceronte, energia máxima no mínimo espaço, frente ao espaço infinito do mar, o quadro resulta da cúspide de uma geometria (...) que permite a mim conhecer existencialmente a verdade do espaço-tempo."
Salvador Dalí

Junto agora o que quis ver antes e o que quero ver, mas junto também como fui vista e não vista ao mesmo tempo. Passada por cima em épocas distintas.
Eu, já muito tola, recebi uma mensagem de que fora à exposição e uma recomendação de ir. Eu, que já tinha recomendado-a e não fui. Mindfuck, fora o que falara a mim, mas não unicamente. Entendi a mensagem e os risos, e a percepção já compartilhada. Os mesmos risos que ecoam em minha cabeça agora. 

Todo o universo no meio da divertida exposição com divertida companhia escapou à lágrima que ali caia.  MINDFUCK. Que caia tão de perto e tão distante. Que caíra antes e cai agora. O hoje é um prenúncio do antes. E aqui contínua continua a lágrima. Num horizonte de nuvens confortantes, num peso maior do que elas parecem aguentar. Mãos e pés dão lugar a patas, estas atadas e muito menores. Já não podem sustentar o peso do casco. Os chifres à venda se diferenciam dos cornos de outros animais. Nunca vi um rinoceronte tão triste. Mas a tristeza sempre passou despercebida. O que vale mesmo são as risadas sobre a forma. O psicológico tão íntimo e que diz tanto fora sacrificado por meia dúzia de risos compartilhado, e naquele tempo, talvez por um dia bom. É. São mindfuck demais para compreender e perceber o estado de espírito de tal criatura. Se tão insensível para com uma massa gélida, como compreenderias um coração pulsante? A pergunta fora retórica. A resposta seria superficial demais ou nem mesmo a teria. Já é costume. E com isso me vejo abaixo e a baixo. Tão pesado. Tão perdido. Tão distante. Tão atado. A boca entreaberta que só cala por já não ter mais com que palavras gastar. Demonstra o vazio e a descrença. O olhar é fixo pro nada. E a lágrima despende infinita longe dos olhos, presa pela alma. Não finda. E naquele dia eu não pude crer no que via e por hoje eu não queria crer no que vi.




Você me parecia tão bem







"Não há porque chorar por um amor que já morreu. Deixa pra lá, eu vou, adeus. Meu coração já se cansou de falsidade."

67 anos

"- Hoje você acredita no amor?
"- Não."
"- E acreditava?"
"- Antigamente existia amor e sinceridade. Não havia desconfiança." Ouvi de uma senhora na tv pela manhã. 
Um encontro, depois das cartas, depois de 67 anos. Uma viúva e um desquitado. 
Depois de mazelas, dos telefonemas, das doenças da idade. Um reencontro. Restabelecimento. 
No instante de um abraço eu acreditei novamente no amor e no límpido lacrimejar daqueles olhos enrugados. E nos meus. Pena que não durara muito mais tempo. 
Um quadrinho de Ribs diz com propriedade: "Há sempre uma porta no nosso vazio esperando alguém entrar..." E entra, mesmo que nem você saiba como. Mesmo sem chave.



Entra quando você consegue sossego; quando a casa está arrumada; quando está finalmente limpa de uma boa festa de ontem, porém devastadora. Que deixa os móveis e os cacos no chão. Nunca (ou quase nunca) levam a sujeira consigo e é você que tem de catar. E o fazes com esmero até. Limpa tua casa com gosto e vê o reflexo na alma. E percebe até que as melhores garrafas de ontem ficaram, mesmo você querendo dar o fim a elas. Você vai lembrar da boa festa, você quer fazê-lo; mas a parte devastadora não é lá tão interessante assim e atormenta o seu presente vazio.

Minhas festas nunca foram de muita gente. Acho que consigo contar nos dedos das duas mãos quantas pessoas já compuseram minhas festas. Uns de acesso permanente, outros de uma vez pra nunca mais. Outros recorrentes. Mas bem menos do que posso contabilizar ao meu redor. Nunca soube o que esperar dessas festas, então, preferia esperar o pior e vez em quando me surpreendia... até que os finais se apresentassem. Podia durar minutos (companhia agradável, festa inteligente, dançante e engraçada. momento errado e uma tristeza sem fim pela festa de outro dia), meia hora (de começo agradável, bonita, abusadíssima, reflexiva, fugitiva e no final gelada), horas (de pensar e de impulso, resultado não tão diferente da primeira), anos (eufórica, abrasiva, amigável e depressiva), meses (desconfiada, abrasiva, decepcionante, de grande tristeza, com passe pra nunca mais voltar) e mais meses (quando você volta esquecendo que fora uma merda, e ainda se diverte muitíssimo porque parece ser diferente, mas só parece mesmo. o final você previa pela outra). Não descrevi todas, mal me lembro de algumas. Grande parte refletia meu espírito.

E mesmo que uma terminasse mal, sempre havia outra a começar e a terminar. A adentrar o vazio que nem queria ser completo ou ter companhia. Que só queria ser vazio sem querer. Ser inteiro. Inteiramente vazio.


domingo, 24 de agosto de 2014

Além do bem e do mal, pág: 164

[...]

A devastação de Chloe aliviou temporariamente o peso da traição. Suas lágrimas representavam uma breve trégua das minhas próprias. A ironia da situação não me escapava - o amante consolando sua amada pelo aborrecimento que traí-lo causou a ela.

[...]

"Desculpe oferecer minha confusão a você, desculpe por arruinar nossa viagem a Paris, desculpe pelo melodrama inevitável. Acho que nunca mais vou chorar como chorei a bordo daquele avião miserável, ou ficar tão dilacerada pelas minhas emoções. Você foi tão doce comigo, foi isso o que me fez chorar mais ainda, outros homens teriam me dito para ir ao inferno, mas você não, e foi isso que tornou as coisas mais difíceis. 
Você me perguntou no terminal como eu poderia chorar e ainda ter certeza. Entenda, eu chorei porque sabia que não podia continuar, e ainda havia tanta coisa me prendendo a você. Eu percebo que não posso continuar a lhe negar o amor que você merece, mas fiquei incapaz de lhe dar. Seria injusto, nos destruiria a ambos.
Nunca serei capaz de escrever a carta que eu realmente queria escrever a você. Esta não é a carta que estive escrevendo para você em minha cabeça nos últimos dias. Eu gostaria de poder fazer  um desenho para você, nunca fui muito boa com uma caneta. Não consigo dizer o que quero, só espero que você leia as entrelinhas.
Vou sentir saudades, nada pode levar o que compartilhamos. Adorei os meses que passamos juntos. Parece uma combinação tão surreal de coisas, cafés da manhã, almoços, ligações telefônicas no meio da tarde, noites no Electric, caminhadas no Kensington Gardens. Não quero que nada estrague isso. Quando se esteve apaixonado, não é a extensão de tempo que importa, é tudo que você sentiu e fez surgindo intensificado. Para mim, é uma das poucas vezes em que a vida não está em outro lugar. Você sempre será lindo para mim, jamais me esquecerei do quanto eu adorava acordar e achar você a meu lado. Eu só não quero continuar a magoar você. Não poderia suportar ver tudo se deteriorar lentamente.
Daqui não sei para onde vou. Talvez passe meu Natal sozinha ou com meus pais. Will está indo para a Califórnia em breve, então vamos ver. Não seja injusto, não o culpe. Ele gosta muito de você e o respeita demais. Ele foi apenas um sintoma, não a causa do que aconteceu. Desculpe esta carta confusa, essa confusão será provavelmente um lembrete de como eu estava com você. Me perdoe, você foi bom demais pra mim. Espero que possamos continuar amigos. Todo o meu amor..."

[...]




Retirado de: Ensaios de amor, por Alain de Botton. Ed. Rocco. L&M Pocket 

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Fulana

te esperei, por tempos, meio que a contra gosto
eu, que já não estava disposto a encontrar um novo alguém
quis ficar só enquanto o mundo passava por mim
e você lá, sorrindo
e eu fiquei só. rindo de toda minha situação
a segurança de que eu estava ali deve ter feito a situação mais divertida, confortante pro ego. novamente
insira aqui a onomatopeia do tempo que me fez companhia. que tiquetaqueavasemparar.
buscou mais de uma vez
talvez devesse ter ficado onde buscou
por onde parou
por ser simples e alegre
vivaz 
não algaz 
por quê? eu?
pra quê? eu?
volta pra antes de mim porque eu juro que não entendo
volta pra lá porque a felicidade me escorreu pelas mãos
volta pra lá pra ser mais feliz
volta pra lá que te convém
volta por querer não me magoar. eu já tinha me acostumado com a tua não presença. deve doer menos
volta pros teus alguéns. pros teus fragmentos de felicidade distintos, e comigo nada parecidos
volta pro bem antes de mim, talvez assim você seja feliz
faça o bem ao teu antigo conforto
que eu fico aqui e finjo que não me mordo. logo, logo vai passar
não tome o meu amor como exemplo, porque ele já te queria bem antes de você saber. tira dele o teu apego, que aparentemente fora por ele que você ficara. vão saber te acalmar, fazer bem, sorrir, bem mais do que fiz e tento fazer. vão te fazer as tardes de sol mais felizes e os dias de chuva sem doer, mesmo que um dia você veja uma lágrima minha pela janela.
vai doer, mas voa pra trás. vai ser simples. assim como te querem bem. como te quer a vida.
me diga, um dia, como foi a trajetória. como vai a vida. 

p.s: crie bem a família e um amor.





E ah, vê se também não conta pra essa que eu tive ciúmes dela e nem da outra. Vou ser agradecida até, se assim o fizer. E se assim não tiver o feito, já não há como ser desfeito. Só fica um pouco mais de despeito. 


terça-feira, 19 de agosto de 2014

retrato

some
das 15 vezes que contei
de tantas outras que desgostei
do caminho ardiloso
em toda a busca
em toda a lembrança
a não temperança
prefixo des
ofusca
à toda a graça
desgraça
e um bolo de vento em plena garganta
indigesto
não mais manifesto
dá-me pavor
conto e reconto
a felicidade que vejo era tão natural
contraponto
o visual conta mais
canta mais
distrai
trai
retrai
inadequado de tão feliz
e como ousou falar de mim
assim
que continuasse
com falsas poses e sorrisos
mais, bem mais
longe
antes
dantes
dante, assim como o inferno
sem retrações
de escolha
sem muito pudor e pureza
sem essa constante certeza
volta pra tua roda
vende a alma
compra alegria
e me cala como fez bem antes
com a dor
que tem nome
recorte





terça-feira, 12 de agosto de 2014

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

De tudo que planejei numa quarta-feira

Eu sempre quis ir à Itália. E você pode se perguntar, quem nunca quis? Ou o que aquele lugar tem demais? E talvez eu nada responda. É só um querer meu. Um querer grande. Não vou discutir meus quereres. 
Lembrei-me que não mais viajaríamos e da sua grande vontade de desbravar o mundo. Dos seus afazeres no trabalho. Da falta de tempo e dinheiro. Então, numa quarta-feira comum passei mais uma vez pela rua das flores às pressas porque estava apressada e atrasada assim como esse fragmento sem vírgulas. Avistei um girassol; dois; três. Vários. Lembrei-me da região da Toscana. Lembrei triste que girassóis fazem sorrir. Pensei em te comprar algum ou margaridas, que pra mim são mini sóis, só pra implantar em você mini sorrisos. Lembrei do quanto queríamos fazer uma viagem e naquele dia tive uma ideia. Ainda executável. Começando pela Itália. Tive vontade de correr a você pra executar meu plano na hora! Mas tinha aula e estava atrasada. Talvez você não pudesse me receber também. Daria trabalho e deixei pra fazer numa outra oportunidade.
Uma ideia bem boba, confesso, mas a forma mais próxima de te dar um lugar do mundo pra visitar enquanto não podes fazê-lo. Tudo que eu precisava era: Uma sacola parda; um girassol bem amarelo; um Spoleto pra viagem; um vinho que fosse razoável e numa garrafa pequena e fofa; uma taça; talheres; aquela toalha de cantina italiana (quadriculada de branco e vermelho) para envolver o jantar comprado às pressas e mais um dos meus cartões feitos à mão, aqueles que você reclamava por ter bastante coisa escrita. Um godere, um Ti amo, e um dolce far niente já seriam suficientes.
Ideia boba, eu sei, mas só seria uma forma de te trazer um lugar que eu gosto tanto, talvez sem motivos aparentes, e fazer você viajar só por um instante (já que comes tão rápido).

*dolce far niente, em italiano: suave indolência ou relaxamento indulgente. o prazer de estar ocioso. "a doçura de não fazer nada".





Ah, e sabe aquele restaurante com uma varanda super bonita perto da São Francisco Xavier, o nome dele é Fiorino, de comida italiana pra variar. E olha que eu nem sabia disso quando chamei sua atenção pra ele. Se um dia quiseres ir lá, vá sim, mas como és avoado, pesquisei e só aceita dinheiro e cheque. Vá num dia agradável, prefira a varanda, dá pra ver o céu.




domingo, 10 de agosto de 2014

Mambembe 2

Certo amigo me perguntou porque meu blog se chamava Mambembe. E por um instante me indaguei. É muito óbvio na minha cabeça, mas nunca tinha contado a ninguém. 

Ele podia ser chamado assim por diversos motivos... porque eu gosto da letra m; porque meu primeiro amorzinho de infância tinha essa letra como inicial de seu nome; por conta da música do Chico Buarque (que eu gosto bastante) ou pelo significado da palavra:

Adjetivo
1. Ordinário; de pouco valor.
Substantivo masculino
2. Grupo teatral volante.
Pois bem, podem existir mais m motivos, mas me apeguei ao último, ao significado.
E eis um nome, volante como os sentimentos que escrevo, e bem ordinário.






Vagão

Eu nunca sei bem como começar uma coisa quando estou apática. Começa mesmo ao me levantar e pergunto-me: Pra que mesmo eu abri meus olhos grandes, ainda pequenos e cambaleantes, na manhã de luz cinza?! Pra que mesmo meu cérebro latejante despertou (agora)?! E junto com ele essas dores incessantes que correm dos olhos até a nuca, se distendendo como um espreguiçar. 
Mesmo assim dou bom dia às paredes e sigo num dia sem graça, a colorir-se ou não, mais tortuoso que qualquer outro das semanas que se seguiam. Com toda aquela merda de confusão que você me causa, e mesmo assim aguardo com ternura pela hora que falarás comigo. E às vezes não acontece. E fica aquela azia condensada e parece (pra você) que nada aconteceu no dia anterior. É, deve ser a sua suprema concentração. Então prefiro me dispersar de você e de tudo que eu penso. Tem faltado pouco.
Quis fazer um caminho diferente quando saí daquele antro de conhecimento e assim foi. Passar pelas flores é o que mais gosto. São tão coloridas e diferentes que atiçam minha mente positivamente. Ou às vezes nem isso, e foi o que aconteceu. Naquele dia somente uma planta/flor (não sou botânica) me chamou atenção, somente curiosidade. Nenhuma alegria como nos outros dias. 
Passou o metrô lá pelas seis e tantas; adentrei. Sentei. Observei como sempre faço. Fico imaginando o estado de humor e a história de cada pessoa que adentrou, como eu, ou que espera paciente ou não, na estação. Por um instante em nada pensei. Parecia até que eu prestava atenção na conversa de dois senhores a minha frente, mas nada ouvia; minha mente era brisa de silêncio. Devia ser a dipirona querendo calar aquela bagunça, que mais acima chamei de cérebro. Saí do transe pouco depois. Embasbaquei-me. Como não tinha notado aquela presença enquanto observava o nada?
Volto-me então ao pensamento de Larissa: "E quem nunca quis viver um amor de metrô?". Não sou lá muito certa enquanto alguns quereres, mas enquanto àquele eu não conseguia produzir muito mais coisa que uma fixação de olhar e um sorriso cortado de lado segurado desde o piloro do estômago. Já não sabia como segurar. 
Observei quando estavas de pé atrás daqueles dois senhores que mencionei, mas não dei de ombros porque eu era o vazio do meu pensamento. Minha mente vaga, vagava entre todos os vagões do meu pensamento. Por todo o descarrilar das últimas semanas e pela mercadoria estragada. Amor ou coisa assim.
Passara para meu lado esquerdo. Não notei as passadas. Parecera teletransporte. Como nos filmes da Audrey Tautou, minha eterna Amèlie, parecera só uma cena engraçadinha e terna de filmes francês. Com direito a biquinho e umas 3 palavras em francês. Eu só quis dizer merci.
Até que sentou do outro lado, quase em frente ao meu banco. Um ou dois lugares de diferença. O lugar perfeito para aquelas escapadelas de olhares, meio que de soslaio. Me contive. Olhei umas duas vezes. Poderia ser pega em breve, e fui. Perdi a dimensão do tempo e fui encarada de volta rapidamente e também com um riso segurado. Eu também ganhara os mesmos olhares de soslaio, a mesma incapacidade de esconder o sorriso com um bico. E eu ri tanto. Fora a coisa mais feliz de todo o meu dia. E saí. Passou. A realidade que me aguardava era outra, menos flor.
Eu poderia descrever tal personagem com maestria, mas preferi manter sua pele alva; a calça social de um corte não tão bom ou de cor duvidosa; os óculos; a pasta carteiro e sua presença tímida, mas importante, resguardados no meu pensamento. Fora breve.




domingo, 3 de agosto de 2014

Mambembe













Volta lá, desfaz o nó

Por Deus, eu só quis ir embora naquele momento de dor. Fora desesperador, sufocante. Já não me queria gente. E como doía. Sem ter pra onde. Quase impotente de dor. Lágrimas e uns grunhidos. 
Nunca vira reação igual.  Mesmo assim não conseguia me arrepender.
Não me ouvira. Não me vira. Custava buscar a referência? Talvez o arrancar do band-aid latejasse menos. A razão ia se achar por si. Independente de nós. Dos nós.
Tá tudo tão nublado. Tudo tão pela metade. Uma escrita de sentimento tão impotente e retido.
Lá se vai mais um mês. Mais um diferente do início. Mais distante dele. Meu momento desabante e distoante. Esse seria o meu ano. Não mais.
Começo a observar os relacionamentos ao meu redor. Tudo que eu nunca precisei fez-me falta. Uma sexta-feira juntos, flores, um carinho, uma comida além do alimento. Na verdade, observei só um. Aquele que me apertou o peito um dia. Que me fez chorar ao amanhecer. Aquele que eu não tive coragem. Um período a frente.
Me doeu ser distante deste, de 1 ano e algo. Cientificamente estável.
Carregamos bagagens diferentes. A minha é bem menor, mas o rancor tem pesado bem mais que qualquer outra coisa. Minha digestão é lenta e extra corpórea. Tenho de vomitar ácido. Só assim as enzimas funcionam. Digerir nunca foi um trabalho fácil.
Preferia que você fosse só aquele estranho que eu conheci num dia significante. Não mais contato; memórias; deduções. Estranho esse que eu viria reencontrar a posteriori, ou não. Nunca pensei que pudesse voltar. Nunca considerei o ou não. Já era doído o suficiente. Não pensei que fosse continuar. Não fora meu primeiro punhal. Sou calejada de tempos. Mas fez doer.
Por ser meu incômodo mais infortúnio devias compreender. Eu sei dos meus motivos. Não adianta falares que já passou; aqui ficou desde que você estava fora. E aqui se difere o verbo que executa e sofre a ação. Ali eu vi o quanto poderia amar e dar com os burros n'água novamente. Amar de todo o coração. Eu já perdi um amor assim, dos grandes enquanto consciência, juvenil. O amor fora feito pra acabar. Por isso lhe insisto, não se esgote.
E assim o foi, dei-me n'água novamente. Contei os meses e os amores. O amei por x dias e y contos de réis. Que Machado me perdoe.
Que não me entendas! Talvez nunca passastes por coisa parecida e subjugas valores. A expectativa e a dor aumentavam proporcionalmente nas sessões de tal rede social.
A mente angustiada, a visão atenta, as palavras (minhas) sempre foram ternas. A distância permanecia. Aparecer vez em quando também é distância. Eu já não queria.
No acordo e fim de meu último relacionamento descobri também pelas palavras o que se passava; dei de cara; fui perguntar. Intuitivamente certa mais uma vez. Deu-se o fim. Eu disse que preferia a verdade, sem mais delongas. A correnteza levou pra lá. Daí assumi que não aceitaria mais omissões e eis que me é apresentada a mesma merda de roteiro. De péssima direção. 
Atuo da mesma forma. Uns personagens mudaram, a trilha sonora e o tempo. Dessa vez evitei o fim e me pergunto como tal trama será conduzida. 
Continuo achando o olhar para trás essencial. Evita-me a inocência (que ainda é grande) ou ilusiona-me. Adianta-me, eu quis mudar o fim. Olha pra trás e faz diferente. Procura naqueles erros que eu vos apontei; vê se batem; descobre mais ou nenhum. Concorda com tudo ou discorda de tudo. Volta naquele dia pra mim. Volta uma vez e pensa no que está lá. Sem delongas dizes que não se lembra. O que custa ver pra não repetir?! Me cansei do "Ah, mas eu não lembro. Faz tanto tempo. Para de relembrar coisas de seis meses atrás ou um ano, não sei." Descobri que é desimportante pra você, mas descobri que é importante pra mim. Cansei de colocar a sua importância antes da minha. As coisas poderiam ter durado menos, e até mesmo nem começado. Mas eu tive que voltar pra você. Voltei dia 31, depois dia 06, de meses diferentes e de uma história mal contada. Volta lá, que eu voltei pra você. 

Eu voltei, mas parece que você não. E histórias assim são feitas de dois.



Escárnio de uma metade

Etm. de origem questionável

[...] Porque metade de mim é o que eu grito
A outra metade é silêncio 
[...] Pois a outra metade de mim é partida
A outra metade é saudade
[...] Pois metade de mim é o que ouço
A outra metade é o que calo
[...] Porque metade de mim é o que penso 
A outra metade um vulcão
[...] Pois metade de mim é a lembrança do que fui
A outra metade não sei
[...] Pois metade de mim é abrigo
A outra metade é cansaço
[...] Pois metade de mim é plateia
A outra metade é canção
[...] Pois metade de mim é amor
E a outra metade também


Oswaldo Montenegro