terça-feira, 27 de dezembro de 2011

ceifar

num entardecer de dezembro
as coisas tendem a turbidez
entrecortando a crase e ao ponto
passando a língua em vírgulas
entre balbucios e prenúncios agouros
tem-se novamente a escuridão
desamor com a alma sem calma
e um certo ardor em coração
tudo inebria escurece arrefece
e nem mesmo uma prece traria de volta a mim
um dia uma pessoa a qual eu quis assim
sem ponto num conto por um tonto

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

novo jardim

Como sentir o choro por alguém que não conheces?
Como sentir tão grande afago pelo mesmo?
Onde eu escondo a saudade?
Quando essas interrogações sumirão?
Retomo então às saudosas sobrancelhas,
que felicitam-me por assim estar.
Escrevem em mim um pouco mais de saudade
enquanto recolhem o meu pranto a bradar.
Interjeições se fazem constantes tão quantas incertezas.
E por você não é a beleza.
É algo tão maior.
São versos pobres, de rimas falhas, mas em cada grafo
há felicidade, e em cada letra, esconde-se saudade.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

antes do catete


e quando só me vem solidão, eu lembro que encontrei
meu amor no metrô, naquela estação
alguma distância, uns olhares entrecortados
um sorriso bobo, meio de lado
o olhar para baixo no mesmo instante
a vontade de ser falante
o poder do observar
daí veio o afastamento em certo momento
e eis que eu perdi o eixo na Presidente Vargas
sem adeus, sem amor
segui viagem

terça-feira, 25 de outubro de 2011

prudência


eu não tenho por quem chorar
choro pra quem num acaso ouvir
dona prudência me chama num canto
e acalanta, na esperança de fazer-me rir com um causo
desmorono num apego, num abraço de gelo,
num ninho de insônia e ele de longe ecoa:
- sonha, menina sonha, que eu de longe
estou aqui, com vontade de você

domingo, 16 de outubro de 2011

Casmurro

Eu fui casmurro
não Dom, mas Casmurro.
A história é a mesma e via-se em você Capitu.
Não houve traição alguma a não ser por dúvida.
Houveram palavras e pensamentos,
perdi-me em cenas obscenas
num clamor de mente nunca dantes ouvido.
Fiz da cena um inferno
e de minha dúvida, meu martírio.
Capitu se foi, mas ainda sim encontra-se nas páginas de meu livro

sábado, 15 de outubro de 2011

sobrancelhas


as mais bonitas que eu já vi em um homem
compartilham de vida própria lado a lado
mistificam um sorriso e atordoam-me
sim, atordoam-me
faz com que eu sinta falta do desconhecido
e do compromisso
fazem cair os olhos num contorno detalhista,
e por fim elas os fazem sorrir em par

p.s: seus mistérios estão nos cantos





terça-feira, 11 de outubro de 2011

into the wild

eu chorei por vê-lo partir
mas talvez tudo o que eu precise
seja partir assim como ele

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

lembrança ínfima

eu me entrego
e simplesmente te espero
na esquina daquela antiga rua
que você sempre passa
numa tal curva da saudade
deixando assim uma lembrança desidratada
num coração sadio
numa fração de passado
numa boca amargurada
de um beijo saudoso
e uma nuca suada

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

curto

e eu me entrego a você
e realmente espero
que me olhe ao menos de longe
pois por um instante
eu pensei que voltarias
a ser somente fotografia

quarta-feira, 8 de junho de 2011

adeus em minúsculas

se eu lhe tinha, já não lhe tenho mais.
se hoje eu vou, já não volto atrás.
fui perene ao lhe esquecer e fui fluido ao lhe querer.
redundante em pensamento e cacofônica com o ato do esquecimento.
bem que tentei calar as tais "5 letras que choram" antes, mas sei que tenho que fazê-las gritar agora.
por isso lhe digo adeus em minúsculas e em minha despedida não há choro e nem há lembrança.
há distância e não há o abraço de quem quer ficar.
há fluidos voláteis se dissipando num meio qualquer.
não há saudade e nem coração. então o que há?
responda-me, pois "5 letras que choram" hão de significar algo em uma despedida...
há um texto não obediente as normas cultas e aos padrões estéticos.
há o protético.
pois bem, ainda não há lágrima para haver choro.
só há o significado de um camarada boêmido da língua portuguesa, aurélio seria seu nome. usado por muitos leigos como eu, aurélio é clamado para ajudar seus filhos pródigos.
e aos que tem dificuldade de clamar por adeus, ele voz diz: 1. usado como cumprimento de despedida. 2. usado para significar desaparecimento ou perda de algo, ou saudades do que já não há. 3. despedida, separação. 4. gesto de saudação e especialmente de despedida.
sinto-me num processo adiabático e a você só me resta dar um segundo ou terceiro adeus.
aviso que dessa vez eu vou para não voltar, e em nenhum momento houveram lágrimas no papel.
por isso, adeus em minúsculas.
adeus

"adeus, adeus, adeus, adeus, adeus, adeus, adeus
cinco letras que choram num soluço de dor
adeus, adeus, adeus
é como o fim de uma estrada
cortando a encruzilhada
ponto final de um romance de amor"

Composição: Silvino Neto
Interpretação: Francisco Alves

domingo, 8 de maio de 2011

amor documental

Eu fiquei folheando as páginas da saudade e me perdi nas horas.
Me desencontrei em datas, me afoguei em lembranças.
Pedi naquele bar uma dose de esquecimento, mas o garçon somente me fez ter um porre de dúvidas, uma dúzia de lembranças, algumas doses de lágrimas e uma pitada de amargura.
Meu paladar fora tomado pelo gosto do fel e este só veio depois de você.
Eu tenho andado calado, pagando o meu apartamento e lembrando de você.
O mesmo emprego, o mesmo cabelo e os mesmos caprichos.
Todo o meu azedume que você era contra.
Fez as malas, foi embora e eu aqui, ainda me lamentando.
Os outros questionam as minhas olheiras e eu só sorrio. Nada teve...
Nada nunca teve fundamento sem você. Um amor de mulher.
Sempre tive ar de professor, mas foi você que me ensinou a amar e eu nunca pude agradecer-te ou mesmo agraciar.
Eu te amei fora de hora, na minha estação.
Eu só tinha 17 e já era agraciado pela solidão.
Eu ainda não tinha pedido a conta naquela noite, mas eu sei que sairia caro.
Eu não tinha dinheiro.
Eu não tinha amor.
Eu só tinha um punhado de você, que você me deixou.
Com o acalento do último abraço disse-me que ficaria bem.
Mentira.
Não teve nenhum abraço, só teve o desejo de que um dia eu fosse feliz e aprendesse a amar, pois você já sabia e tentara me ensinar.
Você estava indo por que tinha um outro alguém e não aguentava mais me aturar reclamar do que me convêm.
Eu fiquei ali por horas sentindo seu perfume se esvaindo e imaginando o quanto estaria perto do seu amor.
O quão longe de mim.
Outra cidade.
Uma pessoa permeada de você e por isso deve estar feliz por agora.
Ele é igual a você.
Ele vai lhe dar o que você já tem.
Vaidade.
Sinto por você, você sente por ele.
Inversamente proporcional e diretamente claro para que eu possa compreender.
Troca de papéis.
Quanto você.
Quanto ele.
Quanta colocação.
3 personagens, ou seriam só dois?
Sempre dois apaixonados. Sempre um intruso.
Uma réplica de você.
Deixa eu pedir a conta pro bar fechar.
Eu bebi a última gota de saudade e esqueci de dormir, mas amanhã eu trabalho e nada aconteceu.
Você sabe de alguma coisa?
Nem eu.
Percebam o ponto depois do fim.
FIM.



sábado, 30 de abril de 2011

viva o burguês

Eu só vi que o mundo não era mundo quando nem tempo para ler um artigo de jornal eu tive. Era proletário.
Apenas chamadas e manchetes estanques numa rua qualquer.
Banca de jornal.
Jornal de banca.
Jornal que banca.
Manchetes grafadas em cor negra, que em muitas vezes se faziam conflituosas com o grande furor do vermelho em sangue dos proclames.
Sangue de negros.
Negros de sangue.
Torna-se redundante e pensante. Mais o primeiro do que o segundo reclame.
Parei no mundo.
Em verdade, queria pará-lo. Não foi possível.
Macacos não tem capacidade de raciocínio lógico.
Há um retrocesso científico, mas ninguém alega nos jornais. Homens macacos. Macacos que dançam.
Trotes, galopes e por fim: a valsa vienense (ou qualquer outra merda).
Todo mundo tem mania de xadrez, mas animais não jogam e nem se travestem.
Abraços e sorrisos da monarquia parlamentar são todos compassados em falsos versos.
O camponês que ainda vive na idade média, ri.
O renascentista de hoje também.
Movimento econômico, anacrônico.
O ser humano se perde em listras.
É um ser quadrado usando mais de um.
É a Coroa.

domingo, 3 de abril de 2011

Inseto

As flores da incerteza florescem o ano todo no meu jardim de dúvidas, e a cada dia; mês; semana; eu colho uma diferente.
Elas maturam muito rápido, mas admito que não são tão belas e frescas assim. São regadas incessantemente por minhas ideias perdidas, e fazem questão de sugá-las por todo, sem mais.
É como uma erva daninha.
Sua semente é espalhada pelo vento, e por isso está em todo lugar.
Até no mais árido ser.
Até no mais árido sertão.
Às vezes vem a chuva e inunda, daí vem o sol e seca.
Entenda como quiser.
É de lágrima. É de raiva.
Aí vem o vento e derruba, vem a primavera e eis que floresce a flor.
Redundante.
É em Setembro que as novas sementes costumam brotar, na primavera que distrai e atrai.
Brotou mais alguma nesses meses permeados de sabor em flor e saudade, mas se foi.
Afinal, flores duram pouco e mesmo que esta seja diferente; incerta, a mesma se vai.
A pétala de esperança se foi.
O caule caiu.
O espinho ficou.
O sangue em seiva brotou. Na terra caiu, a mesma morreu. Em terra ficou.
O chão vermelho se abriu e um inseto nele pousou.
Enquanto a você?
Pintou um chão em giz e fingiu.
Fugiu.

sábado, 2 de abril de 2011

Serpentina

Uma página em branco e uma caneta em punho.
Sentimentos atordoados como tábuas corridas.
Uma escrita porca e uma escrita pobre.
É carnaval e o meu Pierrot morreu.
Em verdade eu nunca fui a Colombina e muito menos ele o meu Pierrot.
Procuro Arlequim, mas não quero fazê-lo chorar nesse carnaval.
No lugar de confetes, choro.
No lugar de serpentina, sangue.
É de carnaval.
É de Colombina.
É de Pierrot duelando com Arlequim.
É de menina sem amor.
É de amor sem menina.

segunda-feira, 7 de março de 2011

tábuas corridas

Escrevo tudo de forma desordenada e corrida, mal entendo esses garranchos de receita de médico frustrado.
Mais uma vez eu me perdi no tempo.
O meu peito está acelerando e minha respiração se encontra cada vez mais ofegante. Um breve momento, faltou-me o ar. Respiro fundo, mas me perco.
Asmática.
Minha cabeça parece rebobinar vozes, passos e eu me vejo tonta por mais uma vez.
São tantas vozes.
Acho então que os remédios não estão surtindo efeito.
Uma respiração contundente e um analgésico, em verdade, mais um deles. Ambos prescritos por mim. O diagnóstico é sempre o mais voraz de toda consulta e nesse caso, o passado.
Está tudo girando contundentemente rápido, a escrita acelerada e falha parece mais um borrão no branco do papel em tinta. Uma última arfada.
Me vejo se esvaindo e caio num buraco de mim. Buraco esse com tábuas corridas.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

sem conceito

O lado do avesso era espesso e eu só fui perceber bem depois de deitar no sofá. Fiz o inverso.
Desliguei a TV, mas os reclames ainda estavam em mim.
Minha barriga emitiu um som estranho, o que evidentemente mostrava fome, ou apenas indiferença. Eu não liguei. Que ela consiga suportar o café-da-manhã do dia anterior.
Meu corpo esquelético não tem lá muitas reservas de gordura. Eu devo morrer cedo, sempre tive essa impressão.
Lipídios e mais lipídios.
Eu já nem lembro o que eu queria, me perdi olhando pro ventilador.
Ele gira numa dança compassada, sem conceito.
Ele me devorava.
Além da fome, só ele o fazia.
Já eu, não devoro ninguém.
Não devoro ninguém desde você, desde que eu prometi nunca mais devorar ninguém com amor do fundo do coração.
Fôlego.
Comeram o meu coração.
Sim, me devoraram por inteira e eu gostava de ser consumida. Algo como combustível.
Virei vegetariana.
Sou pálida, um pouco verde, um pouco magra e deveria comer só folhas. Eu virei vegetariana de amor.
Aquelas ondas devoradoras me levaram àquela praia. (sim, a dos seus sonhos)
Eu joguei na praia dos teus sonhos os meus, e com ele a palavra que me lembrava você. lu...y (eu não consigo pronunciar)
Espero que a pessoa que a encontre seja mais feliz que eu.
Eu continuava no sofá e com o café do dia anterior.
Com sorte eu sobreviveria, mas eu a deixei com o mar e estou naufragada em mim.
Sem cor, como a minha tv por hora. Minúscula, antes Maiúscula.
Só um corpo.
Sorte.

domingo, 30 de janeiro de 2011

eu sou só

Desculpem-me, eu sou só
Desculpo-me por não ter ninguém
Desculpo-me por não ser ninguém
Desculpo-me por eu ser só isso tudo
Isso tudo que representa ser nada
Eu não sou eu nem de cara lavada
Mas que merda
Agora eu sou a falante
Frustrante
Desculpo-me por não respeitar a pontuação e por falar palavrão
Eu parei de ensaiar a língua portuguesa e aprendi a ter nojo de burguês
Eu me cansei do francês
Je ne veux rien
E também não vou me importar se essa colocação está correta
Eu deixo gotejar em mim, mas nem as palavras certas chovem para que eu escreva
Agora eu espero só
Agora eu só espero um temporal de palavras em mim