quarta-feira, 8 de junho de 2011

adeus em minúsculas

se eu lhe tinha, já não lhe tenho mais.
se hoje eu vou, já não volto atrás.
fui perene ao lhe esquecer e fui fluido ao lhe querer.
redundante em pensamento e cacofônica com o ato do esquecimento.
bem que tentei calar as tais "5 letras que choram" antes, mas sei que tenho que fazê-las gritar agora.
por isso lhe digo adeus em minúsculas e em minha despedida não há choro e nem há lembrança.
há distância e não há o abraço de quem quer ficar.
há fluidos voláteis se dissipando num meio qualquer.
não há saudade e nem coração. então o que há?
responda-me, pois "5 letras que choram" hão de significar algo em uma despedida...
há um texto não obediente as normas cultas e aos padrões estéticos.
há o protético.
pois bem, ainda não há lágrima para haver choro.
só há o significado de um camarada boêmido da língua portuguesa, aurélio seria seu nome. usado por muitos leigos como eu, aurélio é clamado para ajudar seus filhos pródigos.
e aos que tem dificuldade de clamar por adeus, ele voz diz: 1. usado como cumprimento de despedida. 2. usado para significar desaparecimento ou perda de algo, ou saudades do que já não há. 3. despedida, separação. 4. gesto de saudação e especialmente de despedida.
sinto-me num processo adiabático e a você só me resta dar um segundo ou terceiro adeus.
aviso que dessa vez eu vou para não voltar, e em nenhum momento houveram lágrimas no papel.
por isso, adeus em minúsculas.
adeus

"adeus, adeus, adeus, adeus, adeus, adeus, adeus
cinco letras que choram num soluço de dor
adeus, adeus, adeus
é como o fim de uma estrada
cortando a encruzilhada
ponto final de um romance de amor"

Composição: Silvino Neto
Interpretação: Francisco Alves

domingo, 8 de maio de 2011

amor documental

Eu fiquei folheando as páginas da saudade e me perdi nas horas.
Me desencontrei em datas, me afoguei em lembranças.
Pedi naquele bar uma dose de esquecimento, mas o garçon somente me fez ter um porre de dúvidas, uma dúzia de lembranças, algumas doses de lágrimas e uma pitada de amargura.
Meu paladar fora tomado pelo gosto do fel e este só veio depois de você.
Eu tenho andado calado, pagando o meu apartamento e lembrando de você.
O mesmo emprego, o mesmo cabelo e os mesmos caprichos.
Todo o meu azedume que você era contra.
Fez as malas, foi embora e eu aqui, ainda me lamentando.
Os outros questionam as minhas olheiras e eu só sorrio. Nada teve...
Nada nunca teve fundamento sem você. Um amor de mulher.
Sempre tive ar de professor, mas foi você que me ensinou a amar e eu nunca pude agradecer-te ou mesmo agraciar.
Eu te amei fora de hora, na minha estação.
Eu só tinha 17 e já era agraciado pela solidão.
Eu ainda não tinha pedido a conta naquela noite, mas eu sei que sairia caro.
Eu não tinha dinheiro.
Eu não tinha amor.
Eu só tinha um punhado de você, que você me deixou.
Com o acalento do último abraço disse-me que ficaria bem.
Mentira.
Não teve nenhum abraço, só teve o desejo de que um dia eu fosse feliz e aprendesse a amar, pois você já sabia e tentara me ensinar.
Você estava indo por que tinha um outro alguém e não aguentava mais me aturar reclamar do que me convêm.
Eu fiquei ali por horas sentindo seu perfume se esvaindo e imaginando o quanto estaria perto do seu amor.
O quão longe de mim.
Outra cidade.
Uma pessoa permeada de você e por isso deve estar feliz por agora.
Ele é igual a você.
Ele vai lhe dar o que você já tem.
Vaidade.
Sinto por você, você sente por ele.
Inversamente proporcional e diretamente claro para que eu possa compreender.
Troca de papéis.
Quanto você.
Quanto ele.
Quanta colocação.
3 personagens, ou seriam só dois?
Sempre dois apaixonados. Sempre um intruso.
Uma réplica de você.
Deixa eu pedir a conta pro bar fechar.
Eu bebi a última gota de saudade e esqueci de dormir, mas amanhã eu trabalho e nada aconteceu.
Você sabe de alguma coisa?
Nem eu.
Percebam o ponto depois do fim.
FIM.



sábado, 30 de abril de 2011

viva o burguês

Eu só vi que o mundo não era mundo quando nem tempo para ler um artigo de jornal eu tive. Era proletário.
Apenas chamadas e manchetes estanques numa rua qualquer.
Banca de jornal.
Jornal de banca.
Jornal que banca.
Manchetes grafadas em cor negra, que em muitas vezes se faziam conflituosas com o grande furor do vermelho em sangue dos proclames.
Sangue de negros.
Negros de sangue.
Torna-se redundante e pensante. Mais o primeiro do que o segundo reclame.
Parei no mundo.
Em verdade, queria pará-lo. Não foi possível.
Macacos não tem capacidade de raciocínio lógico.
Há um retrocesso científico, mas ninguém alega nos jornais. Homens macacos. Macacos que dançam.
Trotes, galopes e por fim: a valsa vienense (ou qualquer outra merda).
Todo mundo tem mania de xadrez, mas animais não jogam e nem se travestem.
Abraços e sorrisos da monarquia parlamentar são todos compassados em falsos versos.
O camponês que ainda vive na idade média, ri.
O renascentista de hoje também.
Movimento econômico, anacrônico.
O ser humano se perde em listras.
É um ser quadrado usando mais de um.
É a Coroa.

domingo, 3 de abril de 2011

Inseto

As flores da incerteza florescem o ano todo no meu jardim de dúvidas, e a cada dia; mês; semana; eu colho uma diferente.
Elas maturam muito rápido, mas admito que não são tão belas e frescas assim. São regadas incessantemente por minhas ideias perdidas, e fazem questão de sugá-las por todo, sem mais.
É como uma erva daninha.
Sua semente é espalhada pelo vento, e por isso está em todo lugar.
Até no mais árido ser.
Até no mais árido sertão.
Às vezes vem a chuva e inunda, daí vem o sol e seca.
Entenda como quiser.
É de lágrima. É de raiva.
Aí vem o vento e derruba, vem a primavera e eis que floresce a flor.
Redundante.
É em Setembro que as novas sementes costumam brotar, na primavera que distrai e atrai.
Brotou mais alguma nesses meses permeados de sabor em flor e saudade, mas se foi.
Afinal, flores duram pouco e mesmo que esta seja diferente; incerta, a mesma se vai.
A pétala de esperança se foi.
O caule caiu.
O espinho ficou.
O sangue em seiva brotou. Na terra caiu, a mesma morreu. Em terra ficou.
O chão vermelho se abriu e um inseto nele pousou.
Enquanto a você?
Pintou um chão em giz e fingiu.
Fugiu.

sábado, 2 de abril de 2011

Serpentina

Uma página em branco e uma caneta em punho.
Sentimentos atordoados como tábuas corridas.
Uma escrita porca e uma escrita pobre.
É carnaval e o meu Pierrot morreu.
Em verdade eu nunca fui a Colombina e muito menos ele o meu Pierrot.
Procuro Arlequim, mas não quero fazê-lo chorar nesse carnaval.
No lugar de confetes, choro.
No lugar de serpentina, sangue.
É de carnaval.
É de Colombina.
É de Pierrot duelando com Arlequim.
É de menina sem amor.
É de amor sem menina.