domingo, 3 de abril de 2011

Inseto

As flores da incerteza florescem o ano todo no meu jardim de dúvidas, e a cada dia; mês; semana; eu colho uma diferente.
Elas maturam muito rápido, mas admito que não são tão belas e frescas assim. São regadas incessantemente por minhas ideias perdidas, e fazem questão de sugá-las por todo, sem mais.
É como uma erva daninha.
Sua semente é espalhada pelo vento, e por isso está em todo lugar.
Até no mais árido ser.
Até no mais árido sertão.
Às vezes vem a chuva e inunda, daí vem o sol e seca.
Entenda como quiser.
É de lágrima. É de raiva.
Aí vem o vento e derruba, vem a primavera e eis que floresce a flor.
Redundante.
É em Setembro que as novas sementes costumam brotar, na primavera que distrai e atrai.
Brotou mais alguma nesses meses permeados de sabor em flor e saudade, mas se foi.
Afinal, flores duram pouco e mesmo que esta seja diferente; incerta, a mesma se vai.
A pétala de esperança se foi.
O caule caiu.
O espinho ficou.
O sangue em seiva brotou. Na terra caiu, a mesma morreu. Em terra ficou.
O chão vermelho se abriu e um inseto nele pousou.
Enquanto a você?
Pintou um chão em giz e fingiu.
Fugiu.

sábado, 2 de abril de 2011

Serpentina

Uma página em branco e uma caneta em punho.
Sentimentos atordoados como tábuas corridas.
Uma escrita porca e uma escrita pobre.
É carnaval e o meu Pierrot morreu.
Em verdade eu nunca fui a Colombina e muito menos ele o meu Pierrot.
Procuro Arlequim, mas não quero fazê-lo chorar nesse carnaval.
No lugar de confetes, choro.
No lugar de serpentina, sangue.
É de carnaval.
É de Colombina.
É de Pierrot duelando com Arlequim.
É de menina sem amor.
É de amor sem menina.

segunda-feira, 7 de março de 2011

tábuas corridas

Escrevo tudo de forma desordenada e corrida, mal entendo esses garranchos de receita de médico frustrado.
Mais uma vez eu me perdi no tempo.
O meu peito está acelerando e minha respiração se encontra cada vez mais ofegante. Um breve momento, faltou-me o ar. Respiro fundo, mas me perco.
Asmática.
Minha cabeça parece rebobinar vozes, passos e eu me vejo tonta por mais uma vez.
São tantas vozes.
Acho então que os remédios não estão surtindo efeito.
Uma respiração contundente e um analgésico, em verdade, mais um deles. Ambos prescritos por mim. O diagnóstico é sempre o mais voraz de toda consulta e nesse caso, o passado.
Está tudo girando contundentemente rápido, a escrita acelerada e falha parece mais um borrão no branco do papel em tinta. Uma última arfada.
Me vejo se esvaindo e caio num buraco de mim. Buraco esse com tábuas corridas.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

sem conceito

O lado do avesso era espesso e eu só fui perceber bem depois de deitar no sofá. Fiz o inverso.
Desliguei a TV, mas os reclames ainda estavam em mim.
Minha barriga emitiu um som estranho, o que evidentemente mostrava fome, ou apenas indiferença. Eu não liguei. Que ela consiga suportar o café-da-manhã do dia anterior.
Meu corpo esquelético não tem lá muitas reservas de gordura. Eu devo morrer cedo, sempre tive essa impressão.
Lipídios e mais lipídios.
Eu já nem lembro o que eu queria, me perdi olhando pro ventilador.
Ele gira numa dança compassada, sem conceito.
Ele me devorava.
Além da fome, só ele o fazia.
Já eu, não devoro ninguém.
Não devoro ninguém desde você, desde que eu prometi nunca mais devorar ninguém com amor do fundo do coração.
Fôlego.
Comeram o meu coração.
Sim, me devoraram por inteira e eu gostava de ser consumida. Algo como combustível.
Virei vegetariana.
Sou pálida, um pouco verde, um pouco magra e deveria comer só folhas. Eu virei vegetariana de amor.
Aquelas ondas devoradoras me levaram àquela praia. (sim, a dos seus sonhos)
Eu joguei na praia dos teus sonhos os meus, e com ele a palavra que me lembrava você. lu...y (eu não consigo pronunciar)
Espero que a pessoa que a encontre seja mais feliz que eu.
Eu continuava no sofá e com o café do dia anterior.
Com sorte eu sobreviveria, mas eu a deixei com o mar e estou naufragada em mim.
Sem cor, como a minha tv por hora. Minúscula, antes Maiúscula.
Só um corpo.
Sorte.

domingo, 30 de janeiro de 2011

eu sou só

Desculpem-me, eu sou só
Desculpo-me por não ter ninguém
Desculpo-me por não ser ninguém
Desculpo-me por eu ser só isso tudo
Isso tudo que representa ser nada
Eu não sou eu nem de cara lavada
Mas que merda
Agora eu sou a falante
Frustrante
Desculpo-me por não respeitar a pontuação e por falar palavrão
Eu parei de ensaiar a língua portuguesa e aprendi a ter nojo de burguês
Eu me cansei do francês
Je ne veux rien
E também não vou me importar se essa colocação está correta
Eu deixo gotejar em mim, mas nem as palavras certas chovem para que eu escreva
Agora eu espero só
Agora eu só espero um temporal de palavras em mim